sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

A revolução da floresta

Como a agrofloresta, uma técnica de agricultura que copia a natureza, sem o uso de venenos ou fertilizantes, pode frear as mudanças climáticas, recuperar ecossistemas, libertar mulheres e acabar com a fome no mundo




Sezefredo Cruz tentou por anos dominar a natureza. Abusava do fogo para limpar a mata e abrir espaço para suas plantações de banana, arroz, milho e feijão em Barra do Turvo, cidade na divisa entre São Paulo e Paraná. Por um tempo deu certo – o fogo fixa os nutrientes de forma rápida e a produção segue a todo vapor. Só que o processo também desgasta o solo. As pragas começaram a dominar as plantações. Sezefredo seguiu a recomendação tradicional: apostou nos fertilizantes e defensivos químicos. E, a cada novo ciclo, menos dinheiro parava no bolso do agricultor.

A paisagem evidenciava os estragos: uma imensidão de terra sem vida, enfeitada com bananeiras fracas e plantas marcadas por pragas. Sezefredo plantava comida, mas só colhia desgosto. “Com o solo ruim, as bananeiras saíam da terra e, às vezes, dava praga. Era uma tristeza.” Os ganhos com o plantio mal pagavam a alimentação dos funcionários que ajudavam na colheita. Um dia de trabalho na lavoura rendia o suficiente para comprar uma lata de óleo. Não viu outra saída a não ser colocar a propriedade à venda.

Até que, em 1995, um tal de Oswaldinho apareceu na cidade para vender seu peixe. Agrônomo contratado pela Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo, Oswaldo Souza tinha a missão de promover feiras entre produtores locais. Mas carregava dentro de si uma paixão bem maior. Seu peixe era a agrofloresta – um sistema integrado de árvores e plantas de diferentes espécies em uma mesma plantação, com uso zero de fertilizantes ou agrotóxicos.



Homem das florestas

Oswaldinho conheceu agrofloresta com Ernst Götsch, um suíço radicado no Brasil. Nos anos 1970, quando ainda vivia na Europa, o agricultor e pesquisador começou a fazer experimentos que combinavam o cultivo de diferentes espécies de plantas no mesmo espaço, como faziam os fazendeiros europeus até o início do século 20. E reparou que seu feijão ficava mais forte quando estava próximo de árvores. Melhor ainda depois que essas árvores eram podadas. Percebeu ainda que não bastava cuidar apenas de uma planta (ou uma espécie): era preciso cuidar de todo o sistema em volta das plantações.

Parecia sem sentido naquela época em que as ideias da revolução verde começavam a dominar as regras da agricultura.

A população mundial crescia rapidamente e a preocupação era como alimentar essa gente toda. O jeito era reduzir o tempo até a colheita e aumentar a produção. A solução apareceu, então, com maquinário pesado, fertilizantes, veneno e sementes selecionadas. Os tratores agilizavam o processo todo e os produtos químicos criavam artificialmente as condições ambientais certas para manter a planta saudável. Nessa lógica da monocultura, qualquer outra espécie (insetos e ervas daninhas) são invasoras e devem ser eliminadas.

Só que, no meio do processo, o solo se acaba, fica mais compactado e impermeabilizado (ou seja, seco). A isso ainda se juntam outros problemas, como a erosão, contaminação do meio ambiente por agrotóxicos, assoreamento de rios, fortalecimento das pragas. E dá-lhe fertilizante para fazer crescer e veneno para matar.

Assim, a cada novo ciclo, mais cara a produção, mais seco o clima, e menor a biodiversidade. Em plantações de orgânicos funciona quase do mesmo jeito, mas com insumos naturais. E os únicos vencedores são os grandes produtores – os Sezefredos e tantos outros agricultores pequenos não conseguem fechar a conta no azul.

Ernst compreendeu todas as falhas desse modelo. E quanto mais se aprofundava em sua pesquisa, mais se afastava das ideias da revolução verde. Encontrou na termodinâmica um conceito para entender como acontecia o impacto negativo da agricultura. É o princípio da entropia, que mede o desgaste e a desordem de um sistema. Imagine sua cozinha – cada vez que você prepara um prato, a louça aumenta e a sujeira cresce. Você bagunça aquele espaço. A natureza funciona do mesmo jeito. Quando o homem transforma o cerrado mato-grossense e as terras da Amazônia em extensas plantações de soja, a natureza entra em desequilíbrio. A louça se acumula e uma hora a conta chega – menos vida, mais pragas, pobreza, aquecimento global e seca.

No sul da Bahia, entre as cidades de Ituberá e Piraí do Norte, a conta da Fazenda Fugidos da Terra Seca andava bem vermelha. E foi para lá que Ernst se mudou em 1984. Comprou 500 hectares de terras improdutivas. “As bananeiras não ficavam de pé. Ficavam deitadas pelo vento. Vinha a chuva e formava uma grande enxurrada. Depois vinha a seca”, lembra Ernst. “Diziam que gringo é burro. Que não sabe escolher terra.”



Como mágica

O gringo burro não queria ser mais um a criar o caos. Decidiu se integrar àquele meio, tirar da natureza sua comida e ganha-pão e ainda assim mantê-la saudável. Se havia entropia, o melhor era buscar o oposto, a sintropia, a capacidade de reorganização das coisas. Encontrou na floresta a melhor saída.

Em qualquer área descampada, o mato é o primeiro a aparecer. Essas “ervas daninhas” se dispersam rapidamente e precisam de poucos nutrientes, então se adaptam melhor à escassez de recursos. É por isso que o matinho nasce na rachadura da calçada ou domina a paisagem de Chernobyl. Ele tem um papel fundamental na recuperação do solo, retendo a umidade e descompactando-o. Como tem ciclo de vida breve, ainda melhora a fertilidade da terra, por conta da ação dos micro-organismos que trabalham na decomposição do mato. Mais rico, o solo cria condições para que plantas cada vez maiores e longevas cresçam. Até que tudo se transforma em uma grande floresta.

A natureza, porém, não tem pressa. Pode demorar milhares de anos até que ela chegue a seu clímax – tudo depende da fertilidade do solo e de pássaros e outros animais que espalhem sementes por lá.

Ernst copiou a natureza e deu a ela a rapidez que a agricultura pede. Criou um sistema de plantio complexo, com plantas selecionadas para cumprir um papel em cada etapa desse processo de regeneração natural – com estratos cada vez maiores. Todas as sementes são espalhadas ao mesmo tempo, bem adensadas – e a escolha de cada espécie depende também da função dela na nossa vida. Alface, rúcula e milho podem fazer o papel do mato. Um pouco maior, a mandioca, por exemplo, as sucede. É quase como uma família: o brócolis cria o mamoeiro, que cria a trema (uma árvore nativa), que cria o ingá, que cria o abacateiro, que cria a castanheira. Até que o mamoeiro cresce, o brócolis desaparece daquele espaço e o estrato da floresta sobe um degrau. Aí a floresta evolui até chegar aos ipês e cedros – que podem ser cortados e vendidos como toras de madeira.

Quanto mais complexo o sistema (com maior interação entre várias espécies, inclusive o homem), mais completa a floresta, maiores as chances de que se torne saudável. “Tenho que ser uma presença benéfica naquele meio. E não pensar apenas no que eu posso tirar disso. O resultado é a abundância”, afirma Ernst. Nesse compasso sincronizado, até formigas, tão combatidas na agricultura convencional, entram na dança. O papel delas é fazer a poda natural e depositar ainda mais matéria orgânica no solo, fabricando um adubo verde. E tudo bem se a cotia aparecer para comer castanhas e o tucano devorar o açaí: em algum momento, eles vão devolver as sementes para o chão e espalhar mudas em um lugar novo.

Ao homem cabe a tarefa de aprimorar ainda mais a poda – até cortar galhos grandes ou derrubar árvores inteiras, sem peso nenhum na consciência ou no equilíbrio do ecossistema. É que perder uns galhos faz um bem danado às plantas. Os microrrizas, uma simbiose entre fungos e raízes, fazem a festa: começam a produzir ainda mais ácido giberélico, um hormônio vegetal, que estimula seu crescimento e o de suas vizinhas, já que as raízes se embaralham sob a terra. Além disso, a poda permite a entrada de luz, que aumenta em até 70% a taxa de fotossíntese. Com mais fotossíntese, maior a captação de gás carbônico, responsável pelo efeito estufa, da atmosfera. Aí quando aquele galho vai para o chão, o carbono fica preso no solo e é liberado aos poucos durante a decomposição – num tempo bem mais lento do que aconteceria em um solo sem tanta matéria orgânica.

E como na floresta uma árvore que cai abre espaço para o reinício do ciclo, a retirada de uma espécie mais velha permite que aquele brócolis que cedeu espaço para o mamão possa voltar a brilhar por lá.

Esse trabalho coletivo acelera o processo de produção (desde o primeiro ciclo, seja em uma área de 100 metros quadrados ou de 100 hectares, pelo menos um pé de alface você vai ter), mas, ao invés de sugar nutrientes, ele enriquece o solo. Com bônus: aumenta a umidade e a incidência de chuva na região.

E o gringo que não sabia comprar terra viu a Mata Atlântica dominar seus 500 hectares. É de lá que manda cacau orgânico de primeira qualidade para a Itália e de onde Ernst obtém uma enorme variedade de frutas e vegetais que, se não vão para a mesa, viram comida para a fauna que passou a morar lá. A fazenda ganhou até um novo nome: Olhos d’Água, em homenagem às 14 nascentes que ressurgiram.


Pelo mundo

Oswaldinho vendeu bem seu peixe. E Sezefredo, hoje aos 73 anos, nem em pesadelo pensa em se livrar do sítio cheio de palmeiras e outras árvores. Dolíria Rodrigues, do quilombo Terra Seca, também não. Impossível olhar a farta floresta no quintal dela e imaginar o cenário de 20 anos atrás: uma casa de pau-a-pique cercada de capim, com baixa produção de feijão, arroz, milho e cana. A agrofloresta trouxe de volta nascentes e fez surgir outras novas. A chuva nunca mais lavou a terra e assoreou o rio – pesquisas na região mostram que uma agrofloresta de 15 anos tem capacidade de absorção equivalente a uma floresta secundária de 70 anos. E ainda que as vendas de verduras e frutas gerem pouca grana (um salário mínino, em média), parou de depender do marido. “Antes eu não conseguia nem comprar um calçado para os meninos. Hoje, com meu esforço, eu consigo. E em até dois anos ainda vou ter um carro”, conta. A casa também já não é mais de barro.

Sezefredo e dona Dolíria representam apenas duas das mais de cem famílias da Cooperafloresta, cooperativa de Barra do Turvo de produtores agroflorestais, que fazem dinheiro com a venda de seus produtos – ainda que com dificuldade em entrar no mercado, por conta da popularidade baixa de algumas frutas e verduras. E já produzem até goiabada, banana-passa, polpas de frutas e farinhas vegetais, graças à pequena indústria de processamento de alimentos financiados pelo projeto Agroflorestar, da Petrobras. Uma ajuda e tanto para uma cidade com o segundo pior Índice de Desenvolvimento Humano de São Paulo.

Mas não é só no sul de São Paulo ou da Bahia que agrofloresta dá certo. Ernst consegue replicar o modelo em diversos ecossistemas. Já deu certo na Amazônia, cerrado, caatinga e até na região do Salar de Uyuni, na Bolívia. Em paralelo, sem influência do suíço, agroflorestas já nasceram na Indonésia e em países da América Central e África, com poder de frear a expansão do deserto do Saara. E a tendência é crescer cada vez mais: foi apontada pela ONU como forma de reduzir a fome e a pobreza no mundo. O Movimento dos Sem Terra também faz sua parte, espalhando agroecologia por seus assentamentos. E até Miguel, da novela Velho Chico, sonha em transformar as terras do avô Afrânio em agrofloresta.

No mundo real, a Fazenda da Toca, em Itirapina, interior de São Paulo, administrada por um dos herdeiros do fundador do grupo Pão de Açúcar, Pedro Paulo Diniz, há poucos meses abandonou a produção orgânica de laticínios para se dedicar às agroflorestas. Há três anos, ele tenta tornar esses produtos financeiramente viáveis. Como o uso de máquinas é limitado, essas plantações exigem mais trabalho manual – o que encarece a produção. A saída foi adaptar algumas máquinas para cuidar da poda e preparo da terra, enquanto os agricultores ficam com a parte mais delicada da colheita. Em até dois anos, a Toca promete colocar os frutos dessas colheitas nos mercados.

Mais do que processo, a agrofloresta carrega uma filosofia. Das organelas de uma célula à biosfera, toda a vida é baseada em uma rede de sistemas complexos que interagem entre si, em uma intensa troca de energia. Assim também deve funcionar a agricultura. “Você não é o mais inteligente ali. Não é o dono. É só uma parte, uma célula”, diz Ernst. É o que ele chama de amor incondicional, sem competição ou escassez. Com abundância e cooperação. E, como mostra a floresta, quem não cumpre sua função sai mais cedo do jogo – que, nesse caso, é a Terra.



quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Ecossistemas marinhos podem resistir às piores extinções em massa

Estudo sugere que funcionamento da vida marinha não foi drasticamente alterado em razão de extremo aquecimento global há 210 milhões de anos


Extinção no fim do período Triássico provocou a morte de 50% das espécies na Terra, mas, mesmo perdendo espécies, o ecossistema marinho pode se recuperar 




Uma das maiores extinções em massa da história não afetou drasticamente os ecossistemas marinhos, sugere um estudo publicado na última semana no periódico Paleontology. Segundo os pesquisadores, embora a extinção em massa que ocorreu durante o final do período Triássico, há 210 milhões de anos, tenha acabado com uma vasta quantidade de espécies tanto na terra quanto no mar, não houve mudanças extremas no funcionamento da vida marinha.

“Enquanto a extinção em massa do fim do Triássico teve um grande impacto no número total de espécies marinhas, a diversidade presente nas espécies restantes era suficiente para fazer com que o ecossistema marinho funcionasse da mesma forma que antes”, afirma o autor do estudo, o paleobiólogo Alex Dunhill, da Universidade de Leeds, no Reino Unido. Segundo os pesquisadores, o resultado demonstra que os ecossistemas marinhos são mais resistentes do que se imaginava e poderiam sobreviver a alguns dos piores eventos de extinção massiva da Terra.

“Não estamos dizendo que nada aconteceu”, complementa o paleontólogo e coautor William Foster, da Universidade do Texas, nos Estados Unidos. “Em vez disso, os oceanos globais nos momentos posteriores à extinção eram mais ou menos como um navio tripulado por uma equipe de esqueletos – todas as estações poderiam ser operadas, mas eram administradas por relativamente poucas espécies.”

Durante o evento de extinção, quase 50% da vida na Terra desapareceu como uma consequência de enormes erupções vulcânicas. A atividade dos vulcões aumentou drasticamente a quantidade de gases estufa na atmosfera, provocando um aquecimento global rápido e extremo. As erupções também estavam associadas ao rompimento do supercontinente Pangea e à abertura do Oceano Atlântico.

No estudo, Dunhill e sua equipe compararam os ecossistemas marinhos antes e depois do evento de extinção ao examinar fósseis do Triássico Médio ao Jurássico Médio – um intervalo de tempo de 70 milhões de anos. Eles também classificaram o estilo de vida de diferentes animais que viviam nos oceanos, analisando a forma como se locomoviam, onde viviam e como se alimentavam.

Dessa forma, os pesquisadores perceberam que nenhum dos estilos de vida desapareceu completamente por causa do evento – e isso ajudou a preservar quase completamente o ecossistema marinho como um todo. Ainda assim, eles admitem que a extinção em massa teve profundos efeitos regionais e ambientais e teve um impacto extremo em ecossistemas oceânicos específicos.

“Algumas das grandes vítimas marinhas do fim do Triássico foram os animais estacionários de recife, como corais. Quando examinamos o registro fóssil, vimos que, enquanto o ecossistema marinho continuava a funcionar como um todo, levou mais de 20 milhões de anos para que os ecossistemas de recifes tropicais se recuperassem desse cataclismo ambiental”, explica Dunhill. “Os ecossistemas de recife são os mais vulneráveis ​​a mudanças ambientais rápidas. O efeito dos gases estufa no fim do Triássico não foi tão diferente do que você vê acontecendo hoje com os recifes de coral, que sofrem com aumento da temperatura do oceano.” Por isso, os pesquisadores acreditam que compreender o que aconteceu com as espécies marinhas no passado pode ajudar a prever o que aconteceria com elas em eventos semelhantes no futuro.




segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Fórum Mundial em Brasília busca alternativa para o futuro da água

Maior evento mundial sobre o tema ocorre entre os dias 18 e 23 de março de 2018 e vai buscar respostas e soluções para os principais problemas hídricos

Água: eixo Sustentabilidade é novo na agenda e vai abrir a discussão da água quanto sua importância social, econômica e ambiental (Naumoid/Thinkstock)

Dentro de 100 dias, cerca de 30 mil pessoas deverão participar do 8º Fórum Mundial da Água, em Brasília, que tem como lema principal compartilhar água.

Entre os dias 18 e 23 de março de 2018, o maior evento mundial dedicado ao uso da água vai buscar respostas e soluções para os principais problemas sobre recursos hídricos.

Realizado pela primeira vez em 1997, pelo então recém-criado Conselho Mundial da Água (com sede permanente na cidade de Marselha, na França), o fórum, que ocorre a cada três anos, nunca foi sediado em um país do Hemisfério Sul. Ao todo, já ocorreram sete edições do evento na África, América, Ásia e Europa.

Em entrevista à Agência Brasil, o coordenador de uma das comissões do fórum, Glauco Kimura, explica que o encontro buscará alternativas para que as futuras gerações possam ter água disponível.

“Nós trabalhamos com três propósitos: mobilizar a sociedade para o tema da água; promover a troca de experiências, que é fantástica, e criar o ambiente político favorável”, diz.

Para Kimura, o fórum não tem caráter de engajamento político, a exemplo das conferências internacionais – como as convenções do Clima, da Biodiversidade, de Quioto, entre outras – nas quais os países se comprometem com objetivos e metas a serem alcançados. A ideia é que os debates levem a um comprometimento não só de governos, mas da sociedade.

Propostas para discussão

O tema água foi dividido em cinco eixos: Processo Temático, Processo Regional, Processo Político, Grupo Focal de Sustentabilidade e Fórum Cidadão.

Glauco Kimura coordena a comissão do Fórum Temático, responsável pela programação do fórum, definida por representantes de diferentes grupos ligados à questão da água.

Ele conta que a comissão foi constituída seguindo o padrão já estabelecido desde o primeiro fórum, realizado no Marrocos.

“Fizemos chamadas públicas para que as organizações envolvidas na questão da água apresentassem suas propostas e indicassem seus painelistas. E esse modelo foi adotado pelas outras comissões. Com isso, estamos montando a grade programática que será composta por sessões de cada processo [eixo] que vão dar o conteúdo do fórum”.

No eixo Processo Regional, a questão da água será tratada do ponto de vista de cada região do mundo. “Cada região tem com a água problemas específicos e soluções diferentes entre si. E essa diversidade vai enriquecer seguramente as sessões de debates”.

No Fórum Político, o objetivo é “incentivar o engajamento das autoridades políticas locais e regionais, como parlamentares, prefeitos e governadores, na participação de atividades e encontros direcionados ao tema água, porque soluções na gestão da água não podem ser implementadas senão por decisões políticas, de lideranças fortes”.

O eixo Sustentabilidade é novo na agenda e vai abrir o leque para a discussão da água quanto sua importância social, econômica e ambiental, e para o desenvolvimento de modelos de gestão mais sustentáveis.

Outra novidade é o Fórum Cidadão, que vai permitir a expansão do debate para o público presente ao evento.

“O que se quer é despertar a consciência e chamar a atenção do cidadão comum para assuntos relacionados à água como algo do seu interesse. E ao mesmo tempo, detectar soluções inovadoras para tendo presente o tema ‘Compartilhando Água”, destaca Kimura.

Ele lembra que haverá ainda o painel de alto nível no qual estarão presentes chefes de Estados, ministros e CEOs de grandes corporações, e quando sairá um posicionamento político.

“Essa declaração não terá um caráter vinculante como os documentos produzidos nas conferências internacionais, mas será sempre uma declaração de compromisso com a questão da água. Porque o fórum tem um caráter de engajamento político que deve influenciar mais adiante decisões políticas sobre o uso e o compartilhamento da água do planeta”, avalia o coordenador.

Entre as presenças confirmadas está o rei Guilherme Alexandre, da Holanda, conhecido pelo seu engajamento com a questão da água, tendo presidido até 2013 o Conselho Consultivo sobre Água e Saneamento da Secretaria-Geral das Nações Unidas.

Outras vozes

Também pela primeira vez, o Fórum Mundial da Água se propôs a ouvir as pessoas que estejam interessadas em colaborar e influenciar as discussões. Foi criado o canal Sua Voz (Your Voice) no site do fórum como uma plataforma para todos que queiram participar com ideias, sugestões e propostas.

Já na primeira rodada, entre 13 de fevereiro e 23 de abril, mais de 20 mil visitantes passaram pelas salas de discussão, deixando mais de 500 sugestões.

A plataforma ficará aberta até janeiro próximo para uma próxima rodada de discussões e, segundo Kimura, a inovação deste fórum vai focalizar especificamente os Objetivos para o Desenvolvimento Sustentável (ODS), definidos pela ONU na Agenda 2030.

Desse modo, os debates dentro das seis salas do canal deverão abordar o desenvolvimento sustentável sob diversos pontos de vista.

“Qualquer cidadão vai poder se inscrever e apresentar sua ideia, sugestão ou proposta numa das salas que foram divididas por tema. Você tem a sala do Clima onde a discussão vai girar em torno da segurança hídrica e das mudanças climáticas. Em outra sala, que tem as pessoas como tema, o debate será basicamente sobre saneamento e saúde”.

Os outros quatro temas são: Desenvolvimento, Ambientes Urbanos, Ecossistemas e Finanças.

Kimura destaca ainda o Business Day (Dia de Negócios) como exemplo da participação diversificada no fórum.

“É um evento para troca de experiências de inovação entre empresas – desde as grandes corporações até empresas de pequeno e médio portes que mostrarão seus projetos para o melhor uso e preservação da água. Há espaço para aqueles projetos de tecnologia de baixo custo e de alcance social”.

Legado

Todo esse esforço para juntar ideias, propostas e sugestões vindas de fontes tão diversas vai resultar em relatório final, a ser publicado em agosto de 2018.

“O documento deverá conter o que nós chamamos de Implementation Road Map, que vai reunir as recomendações sobre tudo aquilo que deveria ser feito para a preservação e o bom uso da água, por quais organizações poderia ser feito e em que setores da sociedade”, diz o coordenador.

Essas recomendações surgirão do debate e da análise das centenas de propostas que serão recolhidas nas diversas instâncias do fórum.

Para conseguir que todas essas informações sejam consideradas e nenhuma delas se perca, a Universidade de Brasília (UnB) vai atuar com 100 bolsistas na coleta desses dados que irão depois para a NC/Dream Factory, a empresa oficial do fórum.

“Quando você reúne ideias e soluções oriundas de países e regiões diferentes você vai acabar encontrando complementaridade entre elas e às vezes sobreposição. Por exemplo, suponhamos o caso de um rio poluído em uma região metropolitana da América do Sul que surge na discussão e encontra o caso de outro rio poluído numa região agrícola da Ásia. São dois casos que podem ter diferenças e ao mesmo tempo problemas semelhantes, mas que podem vir a ter soluções em comum”, avalia Kimura.

Para ele, com a presença de representantes de diversas partes do planeta, o 8º Fórum Mundial da Água poderá, de algum modo, amplificar o alerta que vem sendo feito desde a criação do Conselho Mundial da Água, em 1996: “As pessoas precisam ser lembradas de que ninguém sobrevive sem água”.


terça-feira, 14 de novembro de 2017

Poluição mata mais que guerra e violência

Estudo americano revela que cerca de nove milhões de mortes anuais podem ser atribuídas a doenças causadas pela contaminação do ar e da água.


 A poluição mata mais pessoas anualmente que todas as guerras e violência no mundo, tabaco, fome, desastres naturais, aids, tuberculose e malária, concluiu um estudo americano.

Uma em cada seis mortes prematuras no mundo registradas em 2015 – cerca de nove milhões – podem ser atribuídas a doenças por exposição tóxica, de acordo com um estudo divulgado na quinta-feira (19/10) pela revista científica The Lancet.

Segundo o artigo, a poluição do ar foi responsável por 6,5 milhões de mortes, seguida pela poluição da água, que matou aproximadamente 1,8 milhão de pessoas.

A estimativa de cerca de nove milhões de mortes prematuras por poluição ambiental, considerada conservadora pelos autores do estudo, é um valor 1,5 maior do que o número de pessoas mortas pelo tabagismo e três vezes o número de mortes por aids, tuberculose e malária juntos. A estatística supera também em 15 vezes o número de pessoas mortas em guerras ou outras formas de violência.

Segundo o estudo, 92% das mortes relacionadas à poluição ocorreram em países em desenvolvimento de baixa ou média renda. Uma em cada quatro mortes prematuras na Índia em 2015, ou cerca de 2,5 milhões, foram atribuídas à poluição. Na China, as causas ambientais foram o segundo maior motivo de óbitos, causando mais de 1,8 milhão de mortes prematuras, ou uma em cada cinco.

O estudo é a primeira tentativa de reunir dados sobre doenças e mortes causadas por todas as formas de poluição combinadas, do ar à água contaminada.

"Há muitos estudos sobre a poluição, mas o tema nunca foi alvo dos recursos ou nível de atenção de algo como a aids ou as alterações climáticas", diz o epidemiologista Philip Landrigan, diretor do departamento de saúde global da Faculdade de Medicina Mount Sinai, Nova York, e principal autor do relatório. "A poluição é um enorme problema que as pessoas não estão vendo porque estão olhando para as suas componentes espalhadas."

O relatório estima um prejuízo de 4,6 trilhões de dólares anuais – ou 6,2% da economia global - relacionado à poluição e às mortes causadas por ela.

"O que as pessoas não percebem é que a poluição prejudica as economias. As pessoas doentes ou mortas não podem contribuir para a economia. Precisam de cuidados", diz Richard Fuller, um dos autores do estudo e chefe da organização Pure Earth, que se dedica à despoluição no mundo em desenvolvimento. "Ministros das Finanças ainda seguem o mito de que, se não deixar a indústria poluir, não haverá desenvolvimento. Isso não é verdade."

De acordo com o estudo, o fardo financeiro atinge mais fortemente os países mais pobres. Os Estados de menor renda gastam em média 8,3% de seu Produto Interno Bruto (PIB) para combater os danos causados pela poluição, enquanto os países desenvolvidos desembolsam 4,5%.




segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Mudanças climáticas ameaçam sobrevivência das abelhas

Grande parte das culturas alimentares do mundo dependem de abelhas e outros polinizadores




São Paulo – O declínio dramático das populações de abelhas nos últimos anos tem levado os cientistas a uma corrida global para identificar os principais responsáveis por essa perda.
Três quartos das culturas alimentares do mundo dependem de abelhas e outros polinizadores, o que significa que o sumiço delas põe em xeque a segurança alimentar além de  afetar o equilíbrio dos ecossistemas.
O dano infligido pelas mudanças climáticas aos polinizadores é uma preocupação particular para os cientistas. Uma nova pesquisa, desenvolvida pela Universidade Estadual da Flórida e colaboradores, ajuda a explicar o vínculo entre o clima global em mudança e declínio das populações de abelhas em todo o mundo.
No estudo, publicado na revista Ecology Letters, os pesquisadores descobriram que, assim como o sumiço das abelhas afeta a produção de alimentos, as mudanças climáticas afetam a disponibilidade de flores e alimentos para as próprias abelhas.
A equipe de pesquisa examinou três espécies de abelhas das montanhas rochosas do Colorado, nos EUA, e descobriram que à medida que o clima global muda, os ciclos sazonais delicadamente equilibrados também começam a mudar. Nas montanhas rochosas, isso significa a antecipação do degelo e o prolongamento da estação das flores.
De saída, essas mudanças podem parecer uma benção para as abelhas, afinal uma temporada de floração mais longa proveria mais alimento para as abelhas. No entanto, os pesquisadores descobriram que à medida que a neve derrete mais cedo e a temporada de floração se estende, o número de dias com pouca disponibilidade de flores aumenta, resultando em uma escassez geral de alimentos, que está relacionada ao declínio populacional das abelhas.
“Quando os pesquisadores pensam sobre os efeitos das flores nas abelhas, eles geralmente consideram a abundância como o fator mais importante, mas descobrimos que a distribuição das flores ao longo de uma temporada foi o mais importante para as abelhas”, disse Jane Ogilvie, principal autora do estudo em nota da Universidade.
“Quanto mais dias com boa disponibilidade de flores, mais abelhas podem forragear e as colônias podem crescer. Agora temos temporadas de florescências mais longas por causa da precipitação do derretimento de neve, mas a abundância floral não mudou em geral. Isso significa que temos mais dias em uma estação com pouca disponibilidade de flores”.
Segundo a pesquisadora, a descoberta contribui para a crescente evidência das graves consequências ecológicas das mudanças climáticas e lança novos desafios para a conservação. Os resultados sugerem, ainda, que os pesquisadores do tema devem considerar como as fontes alimentares de uma espécie podem estar respondendo às mudanças climáticas.
Além do fator climático, cientistas mundo a fora estudam outros fatores que podem estar interferindo nas colmeias e no comportamento das abelhas.
Os fatores mais pesquisados incluem o ácaro Varroa destructor, o fungo Nosema ceranae, alguns vírus, pesticidas, em especial os do grupo de neonicotinoides, além do desmatamento e fragmentação de matas e florestas.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Os perigos de reutilizar sua garrafinha de água

Mesmo sendo um hábito ambientalmente correto, reutilizar garrafa de água pode trazer danos à sua saúde


Garrafas de plástico são um grande problema ambiental. Elas são feitas do petróleo, que é uma fonte não renovável, requerem energia para sua produção e distribuição, e acabam contaminando o meio ambiente devido ao fato de grande parte delas não ser direcionada à reciclagem. Ou seja, o destino final acaba sendo lixões, aterros e mares, com péssimas consequências ambientais.

Pensando assim, já que eu utilizei uma garrafa de água, por que não reabastecê-la e usá-la novamente? Afinal, não seria necessária a energia para sua reciclagem e nem poluiria o meio ambiente, certo?

Primeiramente, se você pensa assim, parabéns! O mundo precisa de mais pessoas como você (mas não esqueça que você deve evitar o hábito de comprar a garrafa - há outras opções, como veremos adiante). No entanto, infelizmente essa não é uma solução muito boa para esse problema. Essas garrafas de plástico não são próprias para serem reutilizadas, tanto é que até mesmo seus fabricantes recomendam seu descarte após o uso.

Um dos principais problemas da reutilização dessas garrafas é a contaminação bacteriana. Afinal, as garrafas são um ambiente úmido, fechado e com grande contato com a boca e com as mãos, ou seja, um local perfeito para as bactérias se procriarem. Um estudo realizado a partir de 75 amostras de água das garrafas que alunos do ensino básico utilizaram durante meses, sem jamais as lavarem, descobriu que cerca de dois terços das amostras apresentavam níveis bacterianos acima dos padrões recomendados. A quantidade de coliformes fecais (bactérias provenientes das fezes dos mamíferos) foram identificadas acima do limite recomendado em dez amostras das 75 estudadas. As garrafas não lavadas funcionam como criadouro perfeito de bactérias, afirma Cathy Ryan, uma das responsáveis pelo estudo.



Ah! Então, sem problemas, basta eu lavar minha garrafa d'água que não tem erro!:)

Bem, existe outro problema relacionado a essas garrafas: é o Bisfenol A (BPA), um composto utilizado na produção de plásticos e resinas, que é encontrado principalmente nos plásticos que são fabricados com policarbonato, com o símbolo de reciclagem 7 na embalagem. Um estudo realizado pela Universidade de Harvard, nos EUA, colocou um grupo de pessoas utilizando garrafas plásticas com esse material por uma semana e encontrou um aumento dos níveis de BPA na urina em cerca de 60%. Outro estudo da Universidade de Cincinnati descobriu que ao lavar as garrafas com água quente, o processo de lixiviação foi acelerado, ou seja, o BPA se desprendia mais facilmente do material plástico.

As garrafas com símbolo de reciclagem 1 na embalagem (as PET) também apresentam problemas, posto que podem contaminar a água com outras substâncias de desregulação endócrina e químicos estrogênicos que causam problemas hormonais, como foi identificado por um estudo de 2010.


Opções

Procure garrafas de vidro ou de aço inoxidável para reutilizar, pois, além de ajudar o meio ambiente ao eliminar a necessidade de grandes quantidades de garrafas plásticas, você também estará evitando problemas de saúde. Caso você queira ou realmente precise de uma garrafa de plástico, as mais recomendadas são as de polipropileno, que geralmente possuem uma aparência branca. Um cuidado necessário com todos os tipos de garrafas é o fato de mantê-las limpas a fim de minimizar a contaminação bacteriana, lavá-las e permitir que elas sequem antes de seu reúso.

Quanto às garrafas plásticas, procure realizar sua reciclagem de forma correta, mas evite-as ao máximo.Verifique qual o tipo de plástico ela é feita, facilitando assim o seu descarte seletivo. Descubra o ponto de coleta desse material mais próximo de sua casa.



quarta-feira, 25 de outubro de 2017

'Abalou minha fé na humanidade': foto de rinoceronte morto para roubo de chifre vence concurso


Brent Stirton diz que o que ele viu "abalou sua fé na humanidade".

Uma imagem chocante de um crime ambiental foi a vencedora da competição de Fotógrafo de Vida Selvagem do Ano, conferido anualmente pelo Museu de História Natural de Londres.

Registrada pelo sul-africano Brent Stirton, a foto retrata o corpo caído de um rinoceronte negro na Reserva Hluhluwe Imfolozi, em seu país.

Caçadores clandestinos mataram o animal à noite com um silenciador e arrancaram o seu chifre.

Stirton tirou a foto como parte de uma investigação sobre o comércio ilegal de produtos feitos com partes de rinocerontes. O fotógrafo visitou mais de 30 cenas desse tipo de crime ao longo da apuração e experiencias que lhe deixaram deprimido, segundo ele.

"O meu primeiro filho nascerá em fevereiro, eu tenho 48 anos. E eu acho que demorei tanto tempo (para ter filhos) porque eu meio que perdi a fé na humanidade com o trabalho que chamamos de foto jornalistico. Você de certa forma perde a fé na humanidade."

Stirton, que recebeu o prêmio em uma festa de gala no Museu de História Natural, acredita que por trás do crime da foto provavelmente estão pessoas locais trabalhando sob ordens de outros.

É uma prática comum vender os dois chifres do animal a um intermediário. Essa pessoa então trafica a mercadoria para fora da África do Sul, muito provavelmente por Moçambique, para a China ou o Vietna.

Nesses países asiáticos, o chifre de rinoceronte é extremamente valorizado-comparável a ouro.

O negócio se baseia na crença, sem base cientifica, de que o chifre - que é feito do mesmo material que as unhas dos pés - pode curar tudo, de câncer a pedra nos rins.

"Para eu vencer isso, para o júri reconhecer esse tipo de foto, isso ilustra que estamos vivendo em um momento diferente agora, que isso é uma questão real. A sexta era de extinção é uma realidade e os rinocerontes são apenas um entre as muitas espécies que estamos perdendo em uma velocidade acelerada, e eu sou muito grato à escolha do júri porque dá uma outra plataforma para essa questão", disse Brent Stirton à BBC.


Lewis Blackwell, presidente do júri, disse que a imagem do rinoceronte teve um impacto arrebatador sobre o grupo: "as pessoas podem ficar enojadas ou
horrorizadas - mas (a foto) te fisga e você quer saber mais, você quer saber a história por trás. E você não pode escapar disso, ela te confronta com o que está acontecendo no mundo".

Desjejum do gorila

A foto de um jovem gorila comendo sua fruta de café da manha foi a vencedora da categoria Jovem Fotógrafo da Vida Selvagem.

Ela foi registrada pelo holandês Daniel Nelson, que entrou na categoria de fotógrafos com idade entre 15 e 17 anos.

O gorila tem cerca de nove anos de idade e é chamado de Caco pelos cuidadores.
Eles levaram o jovem para ver o animal no Parque Nacional de Odzala, na República do Congo.

O gorila-da-planície, que vive nas florestas tropicais da África central e ocidental, é uma espécie correndo sério risco de extinção. O número de animais está sendo diminuido pela caça ilegal, doenças (principalmente o ebola) e perda de habitat para minas e plantações de palmeiras.

Daniel, que agora tem 18 anos, disse que ficou sabendo do prêmio aos seis.
"Fiquei imediatamente inspirado e desde então minhas paixões na vida estão relacionadas à vida selvagem, fotografia e conservação."