sexta-feira, 24 de agosto de 2018

A água invisível que “comemos” todo dia sem saber (e seus problemas)

Gado bebendo água: na média mundial, são necessários 15,5 mil litros de água para produzir 1 quilo de carne. (PaulGrecaud/Thinkstock)


São Paulo – Comer água? A escolha das palavras pode parecer estranha, mas, acredite, nós “comemos” um monte de água todos os dias sem nos darmos conta. Por dia, uma pessoa bebe de 2 a 4 litros de água, incluindo a contida em sucos, refrigerantes e outras bebidas. No mesmo período, consome de 2 mil a 5 mil litros de água na forma de alimentos. Tudo quanto é alimento precisa de água para crescer, o que torna a agricultura um negócio extremamente sedento.
Sozinha, a atividade responde, em média, por 70% do consumo mundial do recurso. Mas isso é tão óbvio! Você deve estar pensando, e tem razão. Mas a obviedade tende a cair no esquecimento, já que não exige esforço para ser lembrada ou assimilada. Podemos passar uma vida inteira alheios ao fato de que água não mata só a nossa sede, mas também sacia a nossa fome. Neste Dia Mundial da Água, aproveitemos o momento para refletir.
No rótulo do pão de forma integral ou do biscoito, água sequer é ingrediente. Mas para cultivar o trigo e produzir a farinha refinada, base desses alimentos, gasta-se na média mundial 1,8 mil litros de água por quilo. Cerveja aguada, não dá né? Mas, acredite, para produzir um copo de cerveja (de 250 ml), lá se vão outros 75 litros de água, sendo que a maior parte disso é só para cultivar cevada e outra culturas envolvidas na produção da bebida.
São números volumosos que passam despercebidos por nós, consumidores, mas que podem ser estimados pelo cálculo da chamada “pegada hídrica”, do inglês “water footprint”.
O conceito da pegada hídrica, desenvolvido pelo pesquisador holandês Arjen Y. Hoekstra, abrange a quantidade de água total direta e indiretamente usada para produção de um produto. Sua essência se assemelha às de outras metodologias de contabilidade ambiental, como a pegada ecológica e de carbono: entender de que maneira a forma como vivemos, produzimos e consumimos deixa marcas no meio ambiente.
E o resultado pode surpreender. São necessários 1,7 mil litros de água, em média, para cada quilo de arroz colhido (que é transportado com casca para a usina de beneficiamento). A mesma quantia de batata exige, em média, 290 litros, ao passo que a laranja exige mais de 530 litros por quilo.  Tais cálculos levam em conta médias mundiais e, por tanto, variam de um país para o outro, dependendo das condições de cultivo, do clima, solo e técnicas empregadas.
Num país como o Brasil, megaprodutor de commodities agrícolas, junto com os contêineres cheios de café, soja, milho e açúcar que deixam os portos rumo ao mercado internacional todos os anos, saem toneladas de água, que foram usadas para a produção desses alimentos.
Exportamos, por ano, 112 trilhões de litros de água virtual, segundo dados da Unesco compilados com base na metodologia da pegada hídrica. Somos o quarto maior exportador de “água virtual” do mundo, ficando atrás apenas dos Estados Unidos, Índia e China.
Setor pecuário
À medida que o Brasil se consolida como um grande fornecedor de proteína animal, com um crescimento acumulado na produção de carne bovina estimada em 10,4% entre 2017 e 2021, aumentam as preocupações sobre o volume de água embutido nessa produção. Na média mundial, o volume de água necessário para produzir 1 kg de carne bovina é de 15,4 mil litros.
O cálculo desse número é complexo, e depende de vários fatores, como local do sistema de produção, tipo de animal, o volume de água empregado na produção de insumos, como fertilizantes e medicamentos, a água usada na produção da ração animal, passando pelo volume usado na fazenda para dessedentação, irrigação e lavagem de instalações, até a água necessária para processar a carne que vai chegar ao consumidor final.
“Apesar da complexidade, esforços para conhecer o valor da pegada contribuem para melhorar a gestão da água na cadeia da pecuária e mitigar possíveis impactos. Mais importante do que chegar a um número, é mapear a relação dos elos da cadeia com a água”, explica ao site EXAME o pesquisador da Embrapa Pecuária Sudeste, Julio Cesar Pascale Palhares, que estuda os impactos das produções animais nos recursos hídricos.
Nos últimos anos, a Embrapa tem se debruçado sobre a calculadora, na tentativa de desenvolver indicadores de eficiência hídrica para avaliação do desempenho das diversas cadeias produtivas da carne brasileira. A meta é avaliar a sustentabilidade da atividade, possibilitando a identificação de pontos críticos no uso da água e ações para reduzir impactos negativos, melhorar a eficiência hídrica da produção e de quebra reduzir custos.
Praticar irrigação noturna, construir cisternas para captar água da chuva, instalar hidrômetros na propriedade, substituir mangueiras de fluxo contínuo por modelos de fluxo controlado e adotar programas de detecção de vazamentos são algumas medidas simples que ajudam o produtor rural a diminuir o consumo de água na fazenda.
Pequenos ajustes na dieta animal também dão sinais promissores. Em estudo sobre a pegada hídrica do leite com fazendas parceiras, os pesquisadores da Embrapa conseguiram reduzir em três litros o consumo diário de vacas leiteiras (15% de redução da pegada), com uma intervenção nutricional baseada no ajuste de proteínas na dieta durante o período de lactação. Segundo Palhares, considerando um rebanho de gado leiteiro de 100 animais, e o  período de lactação em torno de dez meses, a economia de água passaria dos 9 mil litros.
Embora as oportunidades para melhorar a gestão da água no setor sejam vastas, a disseminação de boas práticas no campo dependem de mudanças profundas de hábitos.
“Os produtores precisam internalizar no seu dia a dia o manejo hídrico, usar práticas, manejos e tecnologias que conservem água em quantidade e qualidade. Se ele está andando na propriedade e vê uma mangueira pingando, ele deve resolver isso. É importante enxergar a água como um fator essencial de produção, como é a ração, por exemplo. O maior limitante é a questão cultural, aprendemos que no Brasil água é abundante e barata. Mas temos que desconstruir essa ideia, pois água é na verdade um recurso valioso, finito e com custo econômico e ambiental”, diz o pesquisador da Embrapa.
E não devemos nos esquecer que tão importante quanto ter água abundante é ter água em qualidade. A poluição hídrica, causada por agrotóxicos, fertilizantes e outros produtos agroquímicos que escoam para os lençóis freáticos, contaminando rios, lagos e reservas subterrâneas, é um problema crescente em todo o mundo e que compromete a saúde do meio ambiente.
A edição 2018 do Relatório Mundial das Nações Unidas sobre Desenvolvimento dos Recursos Hídricos, divulgada no Fórum Mundial da Água, que ocorre em Brasília, estima que a produtividade agrícola poderia aumentar em cerca de 20% em todo o mundo se práticas de manejo de água mais ecológicas fossem usadas.
Um estudo citado pelo relatório analisou projetos de desenvolvimento agrícola em 57 países de baixa renda e descobriu que o uso mais eficiente de água combinado com as reduções no uso de defensivos agrícolas e melhorias na cobertura do solo, aumentou a produção média de safras nos países estudados em 79%.

Desperdícios vão muito além do campo

Como você já deve ter percebido, nossos pratos estão transbordando de água. Mesmo com técnicas aprimoradas e eficientes de cultivo com menor desperdício, sempre precisaremos de água para plantar. Por isso, a responsabilidade pelo consumo consciente e eficiente de água vai muito além do campo e do agricultor.
Atualmente, o mundo desperdiça nada menos do que um terço dos alimentos que produz, de acordo com estudo do World Resources Institute (WRI) em parceria com o Programa Ambiental das Nações Unidas (Pnuma). A cada ano, 1,3 bilhão de toneladas de alimentos vão parar no lixo, um desperdício ultrajante de comida que reflete um desperdício de recursos naturais, contribuindo assim para impactos ambientais negativos.
Pelos cálculos da ONU, a água utilizada para produzir esses alimentos que são desperdiçados poderia encher 70 milhões de piscinas olímpicas, enquanto a quantidade de terras cultiváveis usadas para essa produção perdida é equivalente ao tamanho do México. Para piorar, um quarto da agricultura mundial está em áreas que sofrem um forte estresse hídrico, ou seja, onde a demanda de água supera, em muito, a oferta.
Em um Planeta mais quente, sujeito a eventos climáticos extremos, os danos à agricultura tendem a aumentar. De acordo com um novo relatório da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), entre 2005 e 2015, os desastres naturais custaram aos setores agrícolas das economias dos países em desenvolvimento US$ 96 bilhões em prejuízos. Isso representa quase um quarto de todas as perdas financeiras causadas por catástrofes naturais no período.
Há uma potencial crise a caminho, que poderá ser deflagrada pelo aumento populacional, a crescente pressão sobre os recursos naturais e um clima cada vez mais arisco. Em 1950, o planeta tinha três bilhões de habitantes; em 2050, seremos nove bilhões, o que colocará uma pressão adicional sobre os recursos hídricos.
Frente ao cenário nebuloso que se avizinha, compreender a relação entre a água e os padrões de produção e consumo de alimentos é um caminho, no mínimo, inteligente e saudável de mitigar riscos e, quem sabe, reduzir nossa pegada no mundo.

segunda-feira, 16 de julho de 2018

O uso abusivo dos agrotóxicos e o mal que eles fazem à saúde humana



O avião percorre numa velocidade média os campos de plantações. O ronco do motor destoa do silêncio. De vez em quando, vê-se uma nuvem de fumaça sendo aspergida sobre o solo e alguém, que está por trás da câmera, comenta algo. O cenário fica em Mato Grosso e quem filma a viagem do avião é um representante da Opan (Operação Amazônia Nativa) entidade que defende os direitos dos povos indígenas. A denúncia é que o limite de 250 metros de distância obrigatório por lei para aspergir agrotóxico foi violado pelo piloto flagrado nas imagens. Índios reclamaram de doenças respiratórias por causa das substâncias.

O Brasil comemora o fato de ter a segunda maior frota de aviação agrícola do mundo. No ano passado, eram registradas 2.115 aeronaves, 2.108 delas aviões. Brasil tem a 2ª maior frota de aviação agrícola do mundo. Com 464 aeronaves, Mato Grosso é o estado com a maior frota do país. Rio Grande do Sul (427) e São Paulo (312) vêm na sequência. A maior frota do mundo pertence aos Estados Unidos (3.600 aeronaves), seguida do México,que ocupa o terceiro lugar no ranking.

Aviões agrícolas foram feitos para distribuir sementes e aplicar defensivos agrícolas, inseticidas, nas lavouras. Também chamados de agrotóxicos. O Brasil consome 20% de todo agrotóxico comercializado mundialmente. E este consumo tem aumentado significativamente nos últimos anos.

Apesar de serem motivo de comemoração, o aumento do número de aviões agrícolas e do consumo de agrotóxicosnão são notícias boas para quem consome os alimentos. Há um uso abusivo dessas substâncias, o que pode causar doenças graves nos humanos.

Depois de estudar cerca de três anos exaustivamente o tema dos agrotóxicos, a professora de Geografia Agráriada USP Larissa Mies Bombardi escreveu uma tese, chamada “Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia”, em que enfatiza essas questões. Sobretudo fica bem claro, depois da leitura do livro, que o marco regulatório da União Europeia é bem mais restritivo com relação aos agrotóxicos do que as proibições impostas, aqui no Brasil, aos que produzem essas substâncias.

"A União Europeia implantou em 2011 um marco regulatório mais restritivo para os agrotóxicos, fazendo com que uma série de ingredientes ativos esteja em fase de banimento na região do bloco econômico. 30% de todos os agrotóxicos utilizados no Brasil são proibidos na União Europeia. E entre os dez ingredientes ativos mais vendidos no Brasil dois são proibidos na união europeia", escreve ela.

“Atrazina é um inseticida que foi proibido na União Europeia em 2014 e que, no Brasil, segue autorizado para os cultivos de abacaxi, cana-de-açúcar, milho, milheto, pinus, seringueira, sisal e sorgo. Mato Grosso do Sul lidera o uso seguido por São Paulo e Mato Grosso. No Brasil estão autorizados, para o cultivo do café, 121 diferentes agrotóxicos. Trinta deles são proibidos na União Europeia há 15 anos”, escreve ela.

Um aspecto da diferença de quantidade de agrotóxicos usados no Brasil e na União Europeia é evidente, em números absolutos. A outra parte é invisível: diz respeito à quantidade de resíduos de agrotóxicos permitida nos alimentos e na água. Isso atinge não só a população rural, como os índios que estão denunciando na reportagem através da organização que os defende, como a população do mundo todo que consome tais produtos.

“Há um fenômeno, quando se pratica a pulverização aérea, denominado “deriva” que se refere à quantidade de agrotóxicos que não atinge o chamado “cultivo-alvo” e que se dispersa no amviente. Fatores que influenciam a deriva, segundo a Associação Nacional de Defesa Vegetal: vento, temperatura do ar, umidade relativa do ar, distância do alvo, velocidade de aplicação e tamanho das gotas”, escreve a professora em sua tese.

Os agrotóxicos foram desenvolvidos na Primeira Guerra Mundial e usados como arma química na Segunda Guerra Mundial. Quando acabou a guerra, eles começaram a ser usados também para defender os agricultores das pragas que podiam acabar com seu sustento e, mais do que isso, arruinar plantações que poderiam alimentar as pessoas. Até hoje há quem os defenda dessa maneira, ou seja, como ferramentas indispensáveis para permitir que os 7 bilhões de humanos possam se alimentar.

As denúncias feitas por organizações e pesquisadores que estudam o tema levam a outro caminho e apontam para os riscos do uso dessas substâncias. Vandana Shiva, cientista, pesquisadora, filósofa, criadora do Banco de Sementes em seu país, a Índia, conta que passou a pesquisar sobre os malefícios do uso de agrotóxicos para a saúde humana quando, há mais de trinta anos, foi testemunha de um acidente ocorrido numa fábrica de inseticidas e que matou mais de 35 mil indianos.

“Os agrotóxicos foram criados na Guerra para matar pessoas”, diz ela.

A Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) fez também um documento apontando problemas com o uso abusivo de agrotóxicos. Chamado “Impactos dos Agrotóxicos na Saúde”, o dossiê não deixa nem margem para dúvidas. Segundo os cientistas, “os agrotóxicos fazem mal à saúde das pessoas e ao meio ambiente”. Alguns dados coletados no estudo corroboram a afirmação:

“Entre 2007 e 2014 o Ministério da Saúde recebeu 34.147 notificações de intoxicação por agrotóxico”

“Entre 2000 e 2012 o Brasil teve um aumento de 288% do uso de agrotóxicos”

“Relatório da Anvisa de 2013 constatou que 64% dos alimentos estão contaminados por agrotóxicos”.

Diante disso, o faturamento da indústria de agrotóxicos no Brasil em 2014, que foi de US$ 12 bilhões, deixa extremamente claro que estamos diante de um dos muitos casos em que o desenvolvimentismo se volta contra a saúde e o bem-estar das pessoas.

É preciso achar um equilíbrio. Ou, que cada um de nós passe a fazer mais contato com os alimentos que consumimos. Talvez não seja tão fácil num primeiro momento, mas a informação é bastante para se começar um movimento neste sentido.



sexta-feira, 29 de junho de 2018

Cobrança por sacola plástica reduz poluição marinha na Europa

Estudo pioneiro associa queda no uso de sacos plásticos após taxação à menor poluição marinha em torno da Grã-Bretanha



São Paulo – Cobrar consumidores e estabelecimentos comerciais pelo uso de sacolas plásticas tem sido uma das medidas mais adotadas por cidades e países na tentativa de reduzir a poluição marinha causada pelo material de origem fóssil. Mas será que a  taxação realmente faz diferença?
A resposta é sim. Em estudo pioneiro, pesquisadores descobriram uma queda estimada de 30% no volume de sacolas plásticas encontradas nos mares ao redor da Grã-Bretanha.
O estudo, publicado na revista Science of the Total Environment, afirma que a queda na poluição das sacolas plásticas é o resultado dos impostos implementados na Europa e ilustra claramente seu poder de reduzir a geração de lixo plástico.
Irlanda e Dinamarca foram os dois primeiros países europeus a introduzir taxas sobre sacolas plásticas, nos idos de 2003. Nos anos seguintes, outras nações europeias seguiram o exemplo. A adesão mais recente à taxa foi a do Reino Unido, em 2015.
A taxa britânica de 5 centavos de libras (cerca de 25 centavos de real) por sacola plástica já reduziu a quantidade de sacolas descartáveis ​​distribuídas pelos grandes varejistas em impressionantes 85%. Na média, o número de sacolas que uma pessoa usa por ano caiu de 140 para 25, relata o jornal The Guardian.
Todos os anos, os oceanos recebem cerca de 8 milhões de toneladas de lixo plástico, segundo estimativas da Organização das Nações Unidas (ONU). Neste ritmo, estima-se que até 2050 possa haver mais detritos plásticos do que peixes no mar.
Os resíduos plásticos dos aterros urbanos são carregados por enxurradas para o mar ou despejados diretamente nos rios pela população. E eles viajam milhares de quilômetros, sendo encontrados em ilhas e regiões marítimas remotas.
Além de não encontrar barreiras, a poluição dos oceanos por resíduos plásticos têm consequências catastróficas para a vida nesse ecossistema, já que muitos animais podem morrer por asfixia ou ingestão de fragmentos.



sábado, 14 de abril de 2018

Animais selvagens usados em “selfies” morrem em poucos meses, diz estudo

Uma pesquisa realizada pela ONG “World Animal Protection” no Brasil e no Peru revela o crescimento desenfreado do uso de animais para fotos, que é acompanhado pelo aumento da crueldade e maus-tratos aos animais

Dilvulgação/World Animal Protection

Entre os animais selvagens prejudicados por causa de selfies estão cobras, preguiças, jacarés, jaguatiricas e pássaros

Algumas das criaturas mais vulneráveis daAmazônia estão sob maus-tratos e sendo submetidos a tratamentos inapropriados por causa da “moda das selfies” com animais selvagens. Entre as consequências apontadas pela pesquisa realizada pela organização “World Animal Protection” estão desidratação, ferimentos e até a morte.

O chamado “comércio de selfies” tornou-se atração para turistas do mundo todo, o que ocasionou um crescimento de 249% do número de fotos com animais selvagens que são compartilhadas no Instagram de 2014 até o momento. Entretanto, por trás dos sorrisos nas imagens, estão escondidas condições cruéis dispensadas aos bichos – sendo que muitos morrem poucos meses depois de terem sido retirados de seu habitat natural, segundo revela a organização responsável pela pesquisa.

“Entre as 34 bilhões de imagens postadas por 700 milhões de pessoas no Instagram, nossa investigação encontrou dezenas de milhares de selfies tiradas com animais silvestres. Essas fotos capturam um momento de alegria para ser compartilhado com amigos, mas não são registram o estresse e o sofrimento dos animais. Além disso, compartilhamentos desse tipo enviam uma mensagem a centenas, até milhares de pessoas de que é aceitável usar animais como acessórios para fotos”, escreveu a instituição.

De acordo com o The Guardian , mais de 40% das fotos tiradas para as redes sociais com a fauna selvagem são classificadas como “selfies ruins”, ou seja, fotos que apresentam alguma pessoa abraçando, segurando ou interagindo inadequadamente com um bicho.

O comércio de selfies é o responsável pelo sofrimento de animais como jacarés, cobras, botos cor-de-rosa e, em especial, as preguiças. Tirados de forma cruel da natureza por pessoas que exploram a vida silvestre em nome do lucro, esses animais são submetidos a abusos físicos e aprisionados em locais sujos e apertados. Tudo isso para que as pessoas os usem como acessórios em fotos”, diz o relatório.

Divulgação/World Animal Protection


''Fenômeno mundial alimentado por turistas, muitos dos quais desconhecem as condições abomináveis dos bastidores''

A World Animal Protection enviou investigadores para Manaus , no Brasil, e para Porto Alegria, no Peru, para estabelecer a extensão do problema. Assim, foram encontradas evidências de agentes turísticos irresponsáveis ​​e de crueldade sendo infligida aos animais utilizados para fotos de turistas que pagam pela experiência.

Entre as crueldades empregadas contra os bichos estão:

- Preguiças capturadas da natureza, amarradas a árvores com corda, não sobrevivendo por mais de seis meses;

- Pássaros, como tucanos, com tumores graves nos pés;

- Anacondas verdes feridas e desidratadas;

- Jacarés reprimidos com tiras de borracha em torno de suas mandíbulas

- Jaguatiricas mantidas em uma pequena gaiola estéril;

- Peixe-boi trancado em um pequeno tanque no pátio de um hotel local;

- Um tamanduá gigante roubado e espancado por seu dono

“Turismo selvagem”: para quem?

O turismo “selvagem” é muito relevante na América Latina. A pesquisa da instituição para cuidado aos animais ainda descobriu que mais de metade das 249 atrações encontradas on-line ofereceram o contato direto com animais selvagens aos turistas internacionais. Entre as questões mais alarmantes está o uso de preguiças como "adereços" nas fotos. De acordo com aWorld Animal Protection , o animal é particularmente vulnerável à interação humana e há “boas razões para acreditar” que a maioria das preguiças que está sendo usada para as selfies turísticas não sobrevive por mais de seis meses.
Divulgação/World Animal Protection

Código de Selfie foi criado pela organização a fim de alertar turistas sobre fotos com animais silvestres

“É extremamente angustiante ver essas criaturas sendo roubadas da natureza e utilizadas ​​como ‘adereços fotográficos’ para serem publicadas nas mídias sociais”, diz o conselheiro da organização, Neil D'Cruze. “A crescente demanda é prejudicial à vida selvagem, não apenas por ser uma séria preocupação com o bem-estar animal, mas também com a conservação das espécies. Nossas investigações online revelaram que, somente na América Latina, a prática de tirar fotos com os bichos envolve 20% de espécies ameaçadas de extinção, e mais de 60% estão protegidas pelo direito internacional”.

Além de apelar aos governos para que façam cumprir as leis existentes e garantir que as empresas de viagens e os agentes turísticos as respeitem, a instituição de caridade também está lançando um “Código da Selfie” para ensinar aos turistas como tirar as fotos sem contribuir com a crueldade.

O CEO da World Animal Protection, disse: “Estamos vendo um fenômeno mundial alimentado por turistas , muitos dos quais desconhecem as condições abomináveis ​​e o tratamento terrível que os animais têm de suportar para fornecer essa foto como lembrança especial”, diz. “Nos bastidores, os animais selvagens estão sendo tirados de suas mães ainda bebês, e secretamente sendo mantidos em locais imundos e apertadas, além de serem repetidamente provocados, o que causa graves traumas psicológicos”, acrescentou.



terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Mais de 95% do lixo nas praias brasileiras é plástico, indica estudo

Até TV já foi encontrada nas praias brasileiras 
Mais de 95% do lixo encontrado nas praias brasileiras é composto por itens feitos de plástico, como garrafas, copos descartáveis, canudos, cotonetes, embalagens de sorvete e redes de pesca.
Esta é uma das principais conclusões de um trabalho de monitoramento realizado desde 2012, em 12 delas, pelo Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP), em parceria com o Instituto Socioambiental dos Plásticos (Plastivida), uma associação que reúne entidades e empresas do setor.
As pesquisas sobre a questão do lixo no mar ainda são escassas e incipientes, tanto no Brasil como no exterior. Mas, em termos mundiais, sabe-se que os resíduos sólidos nos oceanos possuem diversas proveniências.
Estima-se que 80% deles tenham origem terrestre. Entre as causas disso estão a gestão inadequada do lixo urbano e as atividades econômicas (indústria, comércio e serviços), portuárias e de turismo. A população também tem parte da responsabilidade pelo problema, devido principalmente à destinação incorreta de seus resíduos que, muitas vezes, são lançados deliberadamente na rua e nos rios, gerando a chamada poluição difusa.
Os 20% restantes têm origem nos próprios oceanos, gerados pelas atividades pesqueiras, mergulho recreativo, pesca submarina e turismo, como os cruzeiros, por exemplo.

No ranking dos países mais poluidores dos mares, o Brasil ocupa a 16ª posição, segundo estudo americano

No ranking dos países mais poluidores dos mares, o Brasil ocupa a 16ª posição, segundo um estudo realizado por pesquisadores americanos e divulgado em 2015.
Eles estimaram a quantidade de resíduos sólidos de origem terrestre que entram nos oceanos em países costeiros de todo o mundo. Aqui, todos os anos são lançados nas praias entre 70 mil e 190 mil toneladas de materiais plásticos descartados.
  • Ainda de acordo com o mesmo levantamento, a China, a Indonésia e as Filipinas são as nações que mais jogam lixo nos oceanos, com até 3,5 milhões de toneladas de plásticos por ano. Esses três países também aparecem nos primeiros lugares de outro estudo, realizado pela ONG americana Ocean Conservancy. Ao lado da Tailândia e do Vietnã, são responsáveis pelo descarte de 60% dos resíduos plásticos encontrados nos mares do mundo.

Privada também foi encontrada na areia em uma das praias

Resultados

O IO-USP e Plastivida realizaram o levantamento no litoral brasileiro para conhecer em mais detalhes a situação do Brasil.
Ele foi feito em seis praias do Estado de São Paulo (Ubatumirim, Boraceia, Itaguaré, do Uma, Jureia e Ilha Comprida), três da Bahia (Taquari, Jauá e Imbassaí) e três de Alagoas (do Francês, Ipioca e do Toco). No total, foram realizadas seis coletas, inicialmente com intervalos de seis meses e depois de um ano.
"Dessas, as mais poluídas são Boraceia e Itaguaré, Praia do Francês e Taquari", conta o biólogo Alexander Turra, do IO-USP, coordenador do trabalho.
Ele explica que as coletas foram realizadas seguindo um protocolo estabelecido pelo programa das Nações Unidas para o meio ambiente (ONU Meio Ambiente).
"Primeiro, nós limpamos uma área de 500 metros da areia seca, onde a maré não alcança, e das dunas ou restinga, atrás da praia", diz. "Depois, voltamos ao local de seis em seis em seis meses para recolher, identificar e quantificar o lixo nos 100 metros centrais dessa área."
O monitoramento constatou que, em São Paulo, o maior volume se acumula nas dunas ou restingas e é proveniente das atividades de pesca. No Nordeste, o grosso do material é encontrado na areia seca e vem do turismo.
A história que levou à assinatura do convênio entre o IO-USP e a Plastivida começou em 2011, quando foi criado o Compromisso de Honolulu, para discutir a questão de resíduos nos mares em nível global.
Dirigido a governos, indústrias, organizações não governamentais e demais interessados, o documento tem como objetivo servir como instrumento de gestão para a redução da entrada de lixo nos oceanos e praias, bem como retirar o que já existe.

Levantamento foi feito em seis praias paulistas, três baianas e três alagoanas 
Como consequência desse documento, no mesmo ano, foi assinada a Declaração Global Conjunta da Indústria dos Plásticos, da qual a Plastivida é signatária. Foi para implementar aqui esse compromisso mundial que a associação, como uma das entidades representantes da cadeia produtiva dos plásticos no país, e o IO-USP assinaram o convênio em 2012. A meta é se capacitar e desenvolver estudos científicos para embasar as discussões sobre o tema no Brasil.
Desde então, além do levantamento do resíduos nas praias, a parceria resultou em vários outros trabalhos. "O convênio é um arranjo inovador, que junta a universidade com a iniciativa privada para resolver questões importantes para a sociedade", diz Turra. "Ele visa entender o problema, ver onde ele é mais crítico e verificar se as medidas para combater o lixo no mar estão surtindo efeito."
Além disso, foi criado o Fórum Setorial dos Plásticos Online - Por Um Mar Limpo, para ampliar os debates sobre os caminhos e as alternativas de mitigação para o problema dos resíduos nas praias e nos oceanos.
Trata-se de uma plataforma online, que reúne todas as informações e o conhecimento obtidos desde 2012, além das propostas de educação ambiental, prevenção, coleta e reciclagem. Desse Fórum resultou a Declaração de Intenções, um documento que estabelece os compromissos da cadeia produtiva dos plásticos no Brasil sobre o tema.

Combatendo o problema

Os participantes do Fórum pretendem pesquisar alternativas para que o setor industrial e a população possam combater o lixo no mar.
"O Instituto Oceanográfico é um moderador desse diálogo", diz Turra. "Nós auxiliamos as empresas a canalizarem as informações científicas corretas e a realizar as melhores ações concretas possíveis."
De acordo com ele, os principais objetivos do IO-USP nesses projetos são a educação ambiental em relação ao consumo consciente e à destinação correta do material descartado. A ideia é que, bem informadas sobre o tema, as pessoas possam ajudar a manter os oceanos e as praias limpas.
Segundo o presidente da Plastivida, Miguel Bahiense, o conhecimento gerado durante os anos de existência da parceria é de que se trata de um problema que só será resolvido em conjunto pelos vários setores relacionados ao problema.
"Estamos realizando um trabalho de educação, informação e coordenação de ações como campanhas de descarte adequado, conscientização, entre outras, que vão demandar o envolvimento compartilhado de toda a sociedade - poder público, indústria de diversos setores, varejo e a população de forma geral -, para o mesmo fim, que é a preservação dos oceanos e do meio ambiente", diz.

Pesquisador defende trabalho conjunto entre vários setores para combater o problema
"Todo o estudo reunido nos fez entender que a questão do lixo nos mares vai além dos municípios costeiros", avalia Turra.
"Ela envolve todas as cidades, Estados, a gestão dos resíduos sólidos, o saneamento básico, a educação ambiental e toda uma cultura social que deve ser estruturada. Acreditamos que o Fórum será um marco transformador da sociedade, por envolver diferentes setores na busca do desenvolvimento sustentável."


terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

O shopping na Suécia que só vende produtos reciclados

Um centro comercial dedicado exclusivamente à venda de produtos reciclados. Com uma área de 5 mil metros quadrados, o shopping center futurista ReTuna Âterbruksgalleria é, há dois anos, um êxito na cidade de Eskilstuna, a cerca de 100 km da capital sueca, Estocolmo.



A Suécia é um dos países que mais reciclam no mundo: 99% do lixo residencial é reaproveitado, sendo metade incinerada para produzir energia.
“Seu lixo é o tesouro de outra pessoa”, diz o lema desse shopping center sustentável, onde os suecos podem deixar brinquedos, móveis e outros itens usados em um depósito para que nada seja desperdiçado.
A fim de facilitar a entrega de itens usados para reciclagem, como máquinas de lavar e computadores, o acesso ao depósito do shopping sustentável funciona no esquema “drive thru” - basta entrar ali com o veículo, descarregar os itens e sair rapidamente. Depois de uma seleção dos produtos, eles são distribuídos em diferentes seções do shopping para serem reaproveitados.
Uma vez consertados e reprocessados nas oficinas do local, os artigos são vendidos na galeria do shopping - que abriga lojas de bicicletas, computadores e telefones, roupas, materiais de construção, mobiliário, carrinhos de bebê, ferramentas de jardim e itens de decoração.
“Somos o primeiro shopping center do gênero na Suécia e provavelmente do mundo”, diz à BBC Brasil a diretora do centro, Anna Bergström.
Mais do que uma galeria comercial, o ReTuna é também um centro de educação, treinamento e conscientização em torno da sustentabilidade. Nas dependências do shopping, a prefeitura de Eskilstuna promove cursos de design sustentável para adolescentes de escola pública.
Nos cursos, que têm duração de um ano, os estudantes aprendem diferentes técnicas de reciclagem de materiais - como papel, metais, plástico, madeira, porcelana e tecidos - e têm aulas de design direcionadas ao desenvolvimento de produtos sustentáveis.

Decisão política

A ideia de criar o shopping sustentável surgiu em 2007, e a construção do shopping foi aprovada pelos vereadores em 2012. Três anos mais tarde, o ReTuna abriu as portas. A novidade agradou os moradores - embora não tenha escapado de algumas críticas.



“Todos ficaram surpresos e admirados. A ideia é de certa forma provocativa, pois ganhamos dinheiro a partir do lixo de outras pessoas. Às vezes algumas pessoas perguntam se podemos pagar algo pelos itens usados que elas trazem aqui para serem reciclados, ou se podem receber em troca pelo menos um café orgânico. Quando isso acontece, nossa resposta é simples: ‘Obrigado por sua contribuição para ajudar a salvar nosso planeta’”, diz Bergström.
Nem todas as 14 lojas do shopping têm fins lucrativos. A ReBuyke, por exemplo - que vende bicicletas, esquis e patins reciclados -, é uma empresa social que destina todo o lucro de suas vendas para programas que ajudam os desempregados da cidade a conseguir um novo trabalho.
O negócio está dando certo: em 2016, o ReTuna Återbruksgalleria vendeu um total de 8,1 milhões de coroas suecas (aproxidamente R$ 3,1 milhões) em itens reciclados. E o shopping sustentável já criou 50 novos empregos.
Reportagem de Claudia Wallin, de Estocolmo (Suécia) para a BBC Brasil